MINIMALISMO: PRIMEIRO CONTATO

Quando criança eu vivi uma infância sofrida em partes. Digo em partes, pois minha mãe sempre fez de tudo para que eu e meu irmão tivéssemos o maior conforto possível: a melhor educação, estudos e possibilidades. Ela sempre fez a gente se sentir feliz e estudar. Ela sempre disse que conhecimento é algo que não pode ser roubado de nós e é a semente para uma vida melhor. Eu passei por muitas dificuldades financeiras na infância. Moramos de favor durante 20 anos nas casas que parentes, e nesse tempo não existia condição alguma de pagarmos um aluguel, comer, pagar contas e viver. Vivi muito tempo de doações de roupas das primas mais velhas! Minha mãe comprava roupas duas vezes ao ano, roupas de frio e no fim de ano para as festas. Existia uma tradição da roupa nova: somente dessa maneira a gente conseguia mostrar nosso valor pra família, demonstrava que estávamos bem e que a vida seguia.

Quando se é criança você não está nem aí para roupas “boas”, de “marca”, “novas”. Basta estar vestida e confortável para brincar a tarde inteira já está excelente.

Na adolescência, pra mim a pior fase da vida, você não sabe se você é criança, se você é adulta. Ninguém te entende, todos querem muito de você, você não se reconhece, não é aceito, não se aceita… Essa fase na minha época foi bem difícil. Todas as meninas ao meu redor usavam rosa, coisas coloridas, roupas de marca. Cada mês tinha uma novidade, e até começar a trabalhar eu não tinha muitas coisas. Tinha o suficiente, mas não era como a galera da minha escola. Eu ficava frustrada por não ter igual, pedia a minha mãe e, coitada, ela não podia me dar.

Conforme eu fui crescendo ficava subentendido que eu precisava conquistar coisas, porque essas conquistas que diriam o meu valor e o que eu era realmente. A sociedade é muita dura nesse quesito, aprendemos que estar impecável passa uma imagem positiva. Quando se é mulher então essa imagem de perfeição dobra: ter um guarda-roupa com mil roupas diferentes, não repetir vestidos de festas, ir para o trabalho com roupas diferentes, ter um milhão de pares de sapatos, ter coisas que você nem sabe que precisa.

Comecei a trabalhar e aí veio o grande lance, comecei a poder consumir mais. Tudo aquilo que eu tinha vontade eu conseguia comprar a partir daquele instante. Quando digo tudo era tudo mesmo. Desde um bolo, uma esfiha, uma roupa. Eu comecei a ter poder para conquistar as coisas e aquilo era mágico. Até eu começar a comprar toda semana. Bastava eu ter um probleminha no trabalho e para eu ficar feliz eu comprava uma blusinha, um bolo, uma calça, um doce. Eu passava por lojas e shoppings o tempo todo, tanto no trabalho quanto na faculdade. Eu não podia ver uma promoção, tudo era desculpa. Me lembro de por um mês comprar mais de 3 chinelos, pois estava com dores nos pés na faculdade e estava com o sapato fechado. Eu tinha uns 4 chinelos em casa, mas como eu não havia levado na bolsa comigo era mais fácil comprar um novo. Eu comecei a sair pra restaurantes também, onde muitas das vezes a comida nem era tão boa, mas como tinha um status eu frequentava.

Eu tive muitos transtornos nessa fase, com meu corpo principalmente. Passei a ser uma consumista de mão cheia. Acumulava roupas e mais roupas em casa. Eu usava 40 e comprava 36 com a ideia de que se eu comprasse uma roupa menor eu iria conseguir emagrecer e usar aquela calça. Comprava roupas que estavam na moda, mas que não combinavam com o meu estilo. Durante anos fiquei com peças no guarda-roupa com as etiquetas, e cheguei a dever os bancos porque gastava mais do ganhava.

Percebi que precisava refletir sobre a vida que eu tinha e o que queria. A partir daí fiz uma faxina. Comecei com a faxina financeira: paguei as dívidas e quebrei os cartões. Prometi a mim mesma que não cometeria mais esse absurdo, que éramos amigas e que isso não me fazia bem. Depois, fiz um destralhe no guarda-roupas: doei as roupas que não queria mais e decidi comprar dali pra frente somente o que me servia no corpo que eu habitava. Se vestisse 50 compraria uma calça número 50, se fosse 38, seria 38 e assim por diante.

De uns 5 anos pra cá, comecei a trabalhar em casa. O dinheiro para me manter era instável, haviam meses bons e muitos ruins. O dinheiro começou a ser pouco, tive que apertar os cintos. Comecei a me questionar sobre a minha existência, sobre qual era o meu propósito, sobre o que eu queria da vida. O que eu podia dar pra vida? Foram muitos questionamentos, mas comecei a me amar mais, a gostar mais do meu corpo, a usar o meu estilo próprio nos meus looks e a ficar com aquilo que realmente fazia parte de mim.

Conheci esse termo minimalismo a pouco tempo com a Danuta, a Fê Neute, o documentário The Minimalist e outros vídeos no youtube. Nos últimos anos esse assunto teve um boom, e eu comecei a entender que o meu modo de pensar tinha nome: era um movimento, filosofia de vida e que muitas pessoas pensavam como eu. Vi que haviam ideias incríveis para eu colocá-las em prática. Recentemente até tirei minha carteirinha de minimalista! Fiz um vídeo falando sobre isso, você pode assisti-lo clicando aqui.

Passei por diversas fases nessa vida: de consumista a minimalista. De um pé sendo acumuladora, até querer doar tudo e viver apenas com uma malinha nas costas.

A vida não é linear, não é mesmo?! Deve ser isso que faz ela ser tão incrível, com inúmeras possibilidades. O minimalismo pra mim é um caminho sem volta: você ficar com aquilo que te traz felicidade, que faz sentido pra sua vida não tem preço.


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